—E porque não hade elle fazel-o?—atalhou Francisco Lourenço.—Diga vocemecê a sua ama que ao lado de Fernando está seu pae, e que meu filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.

—É impossivel!—exclamou Fernando allucinado por sua enorme angustia.—É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição! Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia—proseguiu elle voltando-se para a criada—que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.

Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e não o contradisse.

A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.

Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:

—Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me, indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Com a alma despedaçada lhe digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...

—Bem, filho—atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de animo—Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais. Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista; mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçado a cegueira. Corre tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se; ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo. Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á indignidade.

Fernando, após breve pausa, respondeu:

—Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa. Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só, e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A fome illude-se com pouco.

Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou: