—Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o proprio suor...
[XIII]
Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:
«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te encontrarei... Até lá.»
E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo, quando Fernando escreveu: Ámanhã parto!... A crueldade dos filhos que amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um encontrão!
Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez de Tavira, dialogavam d'este theor:
—Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está preparando?!—dizia Bartholo.
—Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres são assim.
—E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!
—Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos aventureiros...