Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.

O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando. Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda; e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!

Agora ate-se o dialogo.

—Foi bem lembrada a tua ideia, primo!—tornou o ministro da Alçada, como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com ideias.—O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de lá dizer que nós vamos para Madrid?

—É verdade!—exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.

—Quando elle o souber—tornou Bartholo—espero eu que tu sejas meu genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.

—Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua filha, és tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.

—És honrado, primo Tavira!—exclamou Bartholo—Conta com o amor da minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...

—D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas eu terei astucia para te salvar de todos.

A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a voz, quando perguntou ao marquez: