—Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?
—A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de Fernando com a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.
N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto. Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a Fernando:
—Essa senhora sabe de quem és filho?
—Nunca m'o perguntou...
—Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem, bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é filho de um sapateiro?
Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto desabrido.
O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações seus olhos não alcançavam. E disse:
—Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?
—Fizeram, meu pae—disse o moço agastado.—Por isso mesmo, para me forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu sou!...