—Deus se compadeça de ti!—murmurou o velho, limpando as lagrimas—e me perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tua mesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo. Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho; justamente o contrario...

—Não, meu pae...—interrompeu Fernando—perdoe-me, e não se afflija, por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou, dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...

Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e chorando.

Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando a vontade de seu pae.

Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade n'um quasi morrer de toda ella.

As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!

O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha paixão?

Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por elles.

Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos, enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?

Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.