É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».

Artista, recommendam-me que diga artista, para não offender o apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!

Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta princeza tambem!

Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?

O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se denominam artistas d'artes correlativas... dos pés. Dos individuos cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles chamar-se não sapateiros, mas ferradores.

[XV]

O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de obscura estalagem.

Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das astucias do ministro da Alçada.

Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.

Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura alma do filho. Á santa mulher, para sua consolação, bastou lhe saber que Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.