—Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo realista, e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal, acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar, fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem, entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que, afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances.

—E fóra dos romances, amigo Almeida—disse Fernando.—Agora mesmo te estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas, ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado entre o processo judicial e a fuga.

[XV]

Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.

Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina, depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum vago presagio lhe ennublava o espirito.

A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid. Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto no entre-sol do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior. Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.

Fernando subiu as escadinhas em espiral.

Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:

—Sóbe sem receio, Fernando.

—Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...—disse o moço.