—Não te enganaste.

—Quem era?

—Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto. É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder tempo—continua Paulina com adoravel alvoroço.—Preferes os mil estorvos com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?

—E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida Paulina?—perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz, d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais santa das intenções.

—Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?—tornou Paulina—Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração para o meu!

—Por Deus!—atalhou Fernando.—Eu não te amo, Paulina!?...

—Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada, meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde. Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo, e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra, meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter ouvido n'esta hora?

Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude, que a sua celebrada continencia usurpava.

Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:

—Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz. Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.