Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou pactuado. Disse a menina que se conservasse elle á escuta algum tempo, emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e, depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo, sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com admiração.

Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.

Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do pesadello da impertinente honra.

Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da morosidade do tempo.

—Aqui tens a riqueza da minha Paulina!—disse elle sorrindo e mostrando a mala.—Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve encerrar algum vestido, e as minhas cartas...

Almeida tomou ao alto a mala, e disse:

—Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como ouro.

—Ouro?! estás brincando!—disse Fernando.

—Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.

—Sim, vejamos—condescendeu Fernando, desfivellando as correias.