O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.

O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.

Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguações.

Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez Bartholo de Briteiros.

Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem objectos de valor.

—Não!—disse Briteiros—Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha casa?!

—Examine, senhor—disse o subalterno da policia—que a minha obrigação é averiguar, e sem detença.

Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.

—Que fazem as meninas?!—perguntou o pae com assombro.

Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de responder um monossyllabo.