—Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...—disse Paulina—Como os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...

—Cala-te, pobre criança!—redarguiu Fernando—tu não sabes que mal me fizeste...

Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.

Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde estava o conde.

—Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle já souber que o perseguem.

—Sou tambem perseguido?—atalhou Fernando.

—Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.

—Eu decidi—disse Fernando.

—O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não apparece.

—Não apparece!—exclamou ella atribulada.