Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.
Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:
—Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues capaz de afastar uma infamia com outra...
—Degradei-me por amor de ti—soluçou ella—e agora hei de ir morrer n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que não me tornava indigna aos teus olhos...
—Indigna aos meus olhos!—exclamou Fernando coberto de lagrimas—quando te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?
—Salva-lo, como?...—redarguiu Paulina.
—Restituindo os brilhantes—disse Fernando.
—De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...