Viram-se e reconheceram-se.
O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a brados que muita gente ouviu:
—Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que seduz filhas-familias a roubarem seus paes!
Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para disfructar a lucta.
Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos magnificos.
Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em Portugal, onde está rico e honrado.
Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis e intelligiveis.
Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.
Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no escudo: roi ne puis, prince ne daigne, Rohan je suis.
Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, no verão, em companhia de seu genro.