O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.
No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde que propôz a seu genro, disse em remate do discurso:
—Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem receio de a retirar suja.
—De sangue...—disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.
Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!
[XVIII]
Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e inalteravel por nenhuma diversão.
Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.
Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar a ve-los n'outro mundo.
Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das cartas de Fernando.