—Podéra não! Estes exemplos não se devem perder.
—Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.
—Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a casa do diabo!…
—Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle.
—Então de que voga o exemplo?!
—Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos paes que levem os filhos a vêrem os enforcados.
—Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com os peditorios.
Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da forca.
Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e de boas avenças com a justiça.
Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar. Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro. Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão.