E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as amarguras de Marianna.
—Cuide de sua filha, senhor Cruz!—disse Simão com fervente supplica ao ferrador.—Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu: leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio: bom será que sua filha ignore.
De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado.
Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia, ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta, sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome Simão, que muitas vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa, onde ia visitar o pae a deshoras.
Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do patibulo. Nunca mais!
E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as grades.
Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, covarde! Que bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!»
III.
E Thereza?
Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.