Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.
Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para a expansão em gritos restava á affligida menina.
Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:
—Póde fallar, menina, que ninguem nos segue.
—Ninguem?!
—As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.
—E meu pae não?
—Não, fidalga… Póde chorar e fallar á sua vontade.
—E eu vou para o Porto?
—Vamos, sim, minha senhora.