E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se chamam assim.
Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica, assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança. Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não inscripta em algum dos quatro evangelhos.
Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á doente esta carta de Simão:
«Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero. Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, filha da minha alma!»
Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta. Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza procurava no ceu.
—São aquellas!—exclamou ella.
—Aquellas quê, minha senhora?—disse Constança.
—As minhas estrellas!… pallidas como eu… A vida! ai! a vida!—clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos cadavericas—Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!
—Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!—disse a criada—mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.
—Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver… Não vejo o ceu ha tanto tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos? poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima! Vamos orar ambas!… Vamos, que o Simão não morre… O meu Simão vive e quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja…