Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu, e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e arrancára de si no primeiro instante de demencia.
Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo. Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza, que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai fecundando.
Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos.
E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves, meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:
«O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu.
Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor. Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as depurava com o seu fogo sagrado.
Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz eu fazer do meu amor o teu opprobrio.
Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas!
Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser feliz com outro homem, morreria, Thereza!
Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da suffocação.