—Que é?

—A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha e varrer a casa.

Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe causára, disse com melancolica pausa:

—É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!

—Que está o senhor ahi a prégar?—interrompeu o ferrador—Parece que ficou a modo de tristonho com a noticia!…

—Senhor João—tornou solemnemente o prêso—não deixe aqui a sua querida filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e perseguida como tem de ser!?…

—Perseguida! Tó carocha! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a persigam!… Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe. Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!… aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima da burra!

Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes de quasi continuada convivencia.

—E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?—insistiu o prêso.

—Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará…. O senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.