Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:
—Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!
—Qual marido!…—disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras lagrimas que Simão lhe vira—Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!… Eu sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego a chorar sou um chafariz… Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá. O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga. Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a Marianna já me disse que comprasse duas aquellas… como se chamam aquellas invasilhas de pôr ramos?
—Jarras.
—É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.
VI.
Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.
Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.
Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva, alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas dos adornos proprios dos annos e da qualidade.
Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da familia.