—Nada.

Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

—Devemos á espionagem da policia—disse o corregedor—a novidade de estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?—continuou o magistrado, reparando na açoriana.

—Não é minha esposa…—balbuciou Manoel—é… minha irmã.

—Sua irmã!…—disse Mosqueira—qual das tres? Ha cinco annos que as vi em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?

—Justamente—disse Manoel.

—Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto muito outro do que era!…

—Vieram vêr o infeliz Simão?—atalhou o corregedor.

—Sim, senhor… viemos vêr meu pobre irmão.

—Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!…— ajuntou Mosqueira—mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae, segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz com uma sem-ceremonia que indigna o animo.