—Tenho saudades da rapariga… Dava agora tudo quanto tenho para a vêr aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para sempre!… Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou morresse…
—Mas se tens saudades—atalhou a senhora Josefa—manda buscar a rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor Simão.
—Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me deu hoje… Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao Porto.
—Pois isso é o que tu deves fazer.
—Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.
Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.
Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.
—Ainda estás malucando?!—tornou Josefa.
—Parece coisa do demonio, mulher!… A rapariga estará doente ou morta?
—Anjo bento da Santíssima Trindade!—exclamou a cunhada, erguendo as mãos—que dizes tu, João!