—Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás avessas.
O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.
—Isto é coisa do diabo!—exclamou elle; e foi á cosinha procurar a pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se aturde com absyntho—Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando a alma!—continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no soalho.
Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre os olhos.
—Ora viva!—disse o passageiro.
—Viva!—respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito—A mula é de ropia e chibança!
—Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz?
—Para o servir.
—Venho aqui pagar-lhe uma divida.
—A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba.