—Que seria de mim!—atalhou Simão—A quem deixaria Marianna o seu nobre coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!… Não ha de enlouquecer, Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore, minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas!

VIII.

Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.

Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.

—Porque vendeu as suas terras, Marianna?—perguntou o prêso.

—Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.

—Não faz?… Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
Porto?

—Não, senhor, não fico—balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á qual o seu coração julgava ter respondido de muito.

—Pois então!

—Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.