Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.

—Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas sabe o que é o degredo, minha amiga?

—Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão… É uma terra mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se…

—E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das galés, que tem um condemnado na conta de féra.

—Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.

—E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?

—Não fallemos n'isso, senhor Simão…

—Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino… Se eu morrer?

—Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.

—Ninguem morre quando quer, Marianna…