A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:
—Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o degredo….
—Pense desde já, Marianna.
—Não tenho que pensar… A minha tenção está feita…
—Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.
Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
—Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim? paciencia!… eu é que não posso…
Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:
—Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.
Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios, porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu fiz.»