E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada, tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»

E amargurava acerbamente a desditosa menina!

Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.

Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos estranhos.

E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do corpo.

No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a sua sentença na prisão de Villa Real.

Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a morte.

Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente obtida.

Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi inscripto no catalogo dos degredados para a India.

IX.