A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.

Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor da arte.

Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivella do egoismo.

A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!?

A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o, retratal-o, e dal-o á venda!?

Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella é, feia e repugnante.

A desgraça afervora ou quebranta o amor?

Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funcções opticas do apparelho visual.

Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.

Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar.