Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero vêr o ceu no meu ultimo olhar.
Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas agonias de dez annos de carcere.
Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre, Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a memoria dos padecentes.»
As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa tu ao meu destino… Perdi-te… bem sabes que sorte eu queria dar-te… e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes, vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-ha o meu espirito… Estou tranquilla… Vejo a aurora da paz… Adeus até ao ceu, Simão.»
Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões.
Decorreram seis mezes ainda.
E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao certo o dia do seu trespasse.
Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
Era em Março de 1807.
No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que tinham igual destino.