Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu amo.
—E a passagem vale-a bem!—disse o galhofeiro magistrado.
Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel, como se ignorasse o seu destino.
Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel.
—Que trevas, meu Deus!—exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os cabellos—Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que este soffrimento é insupportavel!
Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os não menos medonhos da lethargia.
—E Thereza!—bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo—E aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais! Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri, ó martyr!
X.
A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
—É demente o senhor Simão?!—disse o desembargador.