Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a trança dos seus cabellos.
Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego, enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista: eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas, esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados.
Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da sua janella ao quarto d'ella.
As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza, contemplando-as, disse: «Como a minha vida…» e chorou, beijando os calices desfolhados das primeiras que recebêra.
Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito d'ellas, que logo veremos cumprida.
Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem…»
Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau, que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.
Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer aferrar a luz fugitiva.
Foi então que Simão Botelho a viu.