E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu.

Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.

Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.

—É Thereza?—perguntou Simão a Marianna.

—É, senhor, é ella—disse n'um afogado gemido a generosa creatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no seguimento d'aquella por quem se perdêra.

De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde.

A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór, que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a sahida para o dia seguinte.

E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do mosteiro.

Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras estrellas, eminentes ao mirante.

—Procura-a no ceu?—disse o nauta.