Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou ouvir o seu nome.

«Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu… O mais puro anjo serás tu… se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna…»

A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio infallivel do trespasse.

Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.

Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração, que não embaciou levemente o vidro.

—Está morto!…— disse elle.

Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não orava nem chorava.

Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:

—Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo … É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrella… Passe a senhora Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.

Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o embrulho á cintura.