—Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma.
—Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar. Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!…
—Conheço de nome.
—Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto não é um matador de officio, acho eu, não é assim?
—De certo…—respondeu Simão, adivinhando o remate da historia—quem era o homem que elle queria morto?
—Era v. s.^a… Ó homem!—disse o ferrador com espanto—O senhor nem sequer mudou de côr!
—Eu não mudo nunca de côr, senhor João—disse o academico.
—Estou pasmado!
—E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo—tornou Simão.
—Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.