Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por outra porta.
—Com sua licença—disse mestre João.
Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.
—Ora, meu fidalgo—continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem sabe as exigencias da ceremonia—ha de desculpar que eu viesse assim em mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta…
—Está muito bem, senhor João—atalhou o academico.
—Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta. Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar.
João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da egua, e continuou:
—Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma damnada!—disse-lhe eu—pois tu vês que o teu macho me aleijou esta egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!?
—E o tiro acertou-lhe?—atalhou Simão.
—Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu. Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca. Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa, disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor, e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!?