Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado; receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno porte de um amante corajoso.
Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que pensar em tal era mais covardia que prudencia.
O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso triste, o respondeu:
—Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma desgraça está para lhe succeder.
—A menina não dizia isso—replicou Simão—sem saber alguma coisa da minha vida.
—Alguma coisa sei…—tornou ella.
—Ouviu contar ao arreeiro?
—Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer…
—Porque?
—Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.