—Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem.
Queres tu que eu lhe falle?

—Para que?

—Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.

—Estás a brincar, prima!—redarguiu Thereza.—Eu hei de ser tua cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.

—Então, vamos?!—disse o velho.

—Estou prompta, meu pae.

Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

—Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.

As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração» uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

—Que diz a menina?!—perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.