Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.
Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa. D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de fugir d'alli!
A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova separada, com cortinas de cassa.
Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se tivesse tinteiro e papel na cella.
Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo Padre-Nosso cabeceava de modo que já não atinou com a primeira Áve-Maria. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.
Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.
A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos d'aquelle dia. A carta rematava assim:
«Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto é triste, meu querido amigo!… Adeus.»
VIII.
Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as feiras e romarias.