—Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou o casco á navalha—disse o ferrador.—Pelo que vejo o sangue do fidalgo deu volta ao estomago da rapariga!… Estamos então bem aviados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu doente…. És ou não és, rapariga?—disse elle á filha, quando ella abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

—Serei com muito gosto, se o pae quizer.

—Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa. Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de ceremonia, nem me diga a Marianna—a menina isto, a menina aquillo. É—rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as compressas—e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

—Se vocemecê tem uma casinha soffrivel—atalhou Simão—póde, querendo, casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

—Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.

Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas sublime de poesia e naturalidade.

João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes termos:

—Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.

O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu, natural como todas, da bôca de seu pae.

A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.