—Eu não fiz isto por interesse, meu pae…—atalhou ella resentida.
—Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia colhe.
Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:—Ainda bem, que elle não póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho esperanças nenhumas interesseiras no que fiz.
Simão chamou o ferrador, e disse-lhe:
—Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da sua boa filha. Tome este dinheiro.
—As contas fazem-se no fim—respondeu o ferrador, retirando a mão—e ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão coze-se todas as semanas.
—Mas aceite—instou Simão—e dê-lhe a applicação que quizer.
—Em minha casa ninguem dá leis senão eu—replicou o mestre João, com simulado enfadamento—Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. E victo-serio!
Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia exasperada da saudade. Em uma dizia:
«Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser virtuosa, menos n'este convento.»