N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes; hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!… Hontem fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.»
Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes, cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza, porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais.
Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.
Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia. Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada, obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria. Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o acontecido.
Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu immediatamente.
Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para fallar onde não era chamada, e disse:
—Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe uma carta sua para entregar á fidalga.
—Isso é possivel, Marianna?!—exclamou Simão, a ponto de abraçar a moça.
—Pois então!—disse o ferrador—o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua.
Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia, quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a. Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta, começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas. Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos. N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas.