—Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus,
Joaquina.
—Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto d'aqui?
Conta, que eu não digo nada, rapariga!…
—Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.
Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga, e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para pensar nas feições da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica; e, além de tudo, linda como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça, avergando ao que a consciencia lhe ia dizendo, chorava.
Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.
Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e esquecido já do ferimento cuja crise de perigo peorára n'aquelle dia, que era o oitavo depois do tiro.
A filha do ferrador deu o recado, sem alteração de palavra. Simão escutára-a placidamente até ao ponto em que lhe ella disse que o primo Balthazar a acompanhava ao Porto.
—O primo Balthazar!…—murmurou elle com um sorriso sinistro—sempre este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!…
—A sua, fidalgo?!—exclamou João da Cruz—morra elle, que o levem trinta milhões de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fôr João. Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. D'hora a hora Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo, e ás duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha engrampa-o, e é sua como dois e dois serem quatro.
—Eu hei de vêl-a antes de partir para Coimbra—disse Simão.