—Olhe que ella recommendou-me muito que não fosse lá—acudiu Marianna.
—Por causa do primo?—tornou o academico ironicamente.
—Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir v. s.^a—respondeu timidamente a moça.
—Lá se quer—bradou mestre João—a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho.
Não tem mais que dizer.
—Meu pae! não metta este senhor em maiores trabalhos!—disse Marianna.
—Não tem duvida, menina—atalhou Simão—eu é que não quero metter ninguem em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ella seja, hei de eu luctar sósinho.
João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se ennobrecia, disse:
—Senhor Simão, v. s.^a não sabe nada do mundo. Não metta sósinho a cabeça aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rustico; mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do rei, não se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a praga, e são como as rãs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro á tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua, á mão lhe ha de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante, é dictado dos antigos. Olhe que isto não é mêdo, fidalgo; tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello, mas não sabe o que é mêdo. Se o senhor quer sahir á estrada e tirar a tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fôr necessario, eu vou montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens, que são quatro dragões.
Simão fitára os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna exclamára, ajuntando as mãos sobre o seio:
—Meu pae! não lhe dê esses conselhos!…