Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:

—Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz!
E não foi ella quem me mandou o dinheiro?

—Olhe que o almoço arrefece, menino!—disse o criado.

Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:

«Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis.

Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te acompanhou.

Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á cadêa.

Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido como está teu pae.»

Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas.

—Não chore, menino;—disse o criado—os trabalhos são para os homens, e
Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.