—Leva o almoço—disse elle.

—Pois não quer almoçar?!

—Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.

O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da loucura nas palavras do filho.

Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!»

—Não quero ver lagrimas, Marianna—disse Simão—Aqui, se alguem deve chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que recebi.

Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.

—Seu pae teve algum perigo?—tornou Simão em voz só perceptivel d'ella.

—Não, senhor.

—Está em casa?