—Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo.
—Está bom, Marianna… Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu hospede, seja o seu anjo de misericordia.
Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços, estas palavras:
—Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe appareceu hoje uma irmã.
E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira.
—Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta—disse ella, e sahiu apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão.
II.
O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser transportado em cavalgaduras.
Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:
«Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia. Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas circumstancias e promenores.