Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas, como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu, porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.
Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.
O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando a finados por alma de Balthazar.
Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia, triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava, disse Simão:—A minha família é esta.
No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a jornada na minha cavalgadura.
Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae, que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e filhas.
Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.
Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não aceitava nada.
De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.
A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á mão de meu pae.