E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios paes condemnavam os filhos criminosos.
Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a furiosamente.
Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu doente.
Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão aquelle que castiga.»
Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos. Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me mato.—E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.
No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na
Relação, e de lá para Lisboa[4].
Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que
Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os
grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram
Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.
Depois……»
Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado.
Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou: