Pouquissimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve comnosco. Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear d'olhos ao marido.
—Bem sei, disse elle. Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos mexidos.
E ella, sorrindo, disse:
—Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma soffrivel interprete da arte de cozinha.
—Interprete!—exclamou elle—Tu és mais! Tu inventaste a sciencia da cozinha, que é muito mais sublime que arte. A tua modestia é que te não deixa vir á luz do mundo, d'este mundo cujas aspirações confluem todas para a gastronomia, com um tractado, que, ao mesmo tempo, me désse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambroziacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiaes gargantas. A aldêa, meu bom amigo—continuou Affonso voltando-se para mim com solemne e galhofeira seriedade—a aldêa dispensa ao espirito investigador um curso completo de sciencias. A poesia do estomago, esta mais que todas poesia humanitaria, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente; aqui dá-se ao espirito a presidencia em todas as materias assimilaveis. Estou com o nosso admiravel Castilho n'estas memorandas palavras: «Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só que para a poesia se não fizeram ellas; e que, se n'essa fragua algum engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos.» E a poesia que é?—acudiu Affonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citação—o que é a poesia se não aquelle estado diáphano e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando n'um envolucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exhalação crassa d'um estomago derrancado, azedo, e intumecido? Pois has-de tu saber que um estomago limpo é a fonte de todo saber; e que a sciencia constructora dos selectos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os affectos da alma—Logo...
A esposa tinha sahido quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaças de longo fôlego.
Eu estava ouvindo, como quem sonha, Affonso de Teive. Andavam já a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na aldêa; e posto que a defeza do paradoxal consorcio entre estomago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Affonso havia soffrido profundas commoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objectos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a felicidade alterasse d'aquelle modo o genio e maneiras d'um homem, que eu jámais ouvira preconisar as regalias do estomago. Crêr que o bem-estar da alma procedia d'uma brutificação d'ella mesma, e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivencia de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras, e das magnificencias da arte, em fim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdesa, e falsificação no caracter de Affonso de Teive.
Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos annos o espirito menos propenso que eu vira á paz dos campos, e ao absoluto apartamento da sociedade.
Estava a cêa na mesa. Que enorme cêa comemos, e que estrondoso ruido fizeram os meninos!